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Instituto de pesquisas tem União Brasil, partido então comandado por Moro, como primeiro contratante no Paraná

Instituto teve primeiro levantamento no Paraná contratado pelo União Brasil quando Sergio Moro ainda presidia a legenda; meses depois, O Correio do Povo passou a responder por 73,53% dos valores registrados

A trajetória das pesquisas do instituto Neokemp no Paraná em 2026 levanta questionamentos que vão além dos números divulgados nas pesquisas eleitorais. A sequência de contratantes mostra uma conexão inicial com o partido que era presidido por Sergio Moro, seguida por uma concentração de nove dos 11 levantamentos registrados no Estado em um único veículo de comunicação: o Jornal O Correio do Povo, de Santa Catarina.

O primeiro levantamento da Neokemp registrado no Paraná neste ano foi o PR-01340/2026, contratado pelo União Brasil-PR, no valor declarado de R$ 45 mil. O registro consta no PesqEle, sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e aparece na relação oficial levantada para esta reportagem.

Naquele momento, Sergio Moro ainda presidia o União Brasil no Paraná e já era pré-candidato ao Governo do Estado. A pesquisa foi realizada entre 18 e 20 de março, e Moro deixou a presidência estadual da legenda poucos dias depois, segundo levantamento publicado pelo HojePR.

A contratação, portanto, não aparece registrada em nome da campanha de Moro, e não há, nos documentos analisados, comprovação de que sua campanha tenha contratado diretamente a Neokemp. O vínculo documentado é com o União Brasil estadual, partido que naquele período era comandado por Moro.

É justamente essa circunstância que torna a sequência posterior relevante.

Depois do partido de Moro, entra o O Correio do Povo

Em abril, aparece um novo contratante: a Rede Paraná Notícias/aRede, de Ponta Grossa, com outro levantamento de R$ 45 mil. A partir de julho, entretanto, ocorre uma mudança significativa.

O Jornal O Correio do Povo passa a aparecer sucessivamente como contratante das pesquisas da Neokemp para o Paraná. Ao todo, são nove registros, que somam R$ 250 mil. O valor representa 73,53% dos R$ 340 mil declarados em 11 pesquisas do instituto no Paraná para governador e senador.

A concentração é ainda mais evidente quando se observa a sequência cronológica: são contratações de julho, agosto e setembro, incluindo um levantamento de R$ 50 mil e vários outros de R$ 25 mil.

O dado não significa, por si só, irregularidade. Mas levanta uma questão objetiva: por que um veículo regional de Santa Catarina passou a concentrar quase três quartos dos valores declarados em pesquisas da Neokemp sobre uma eleição estadual do Paraná?

O vínculo político do principal contratante

A questão ganha outra dimensão quando se observa quem está à frente do O Correio do Povo.

O presidente da Rede OCP, Walter Janssen Neto, teve sua filiação ao Novo anunciada pelo próprio veículo em 2018. Em 2026, ele também aparece como doador de R$ 30 mil para a campanha de Rodrigo Livramento, candidato do Novo a deputado federal por Santa Catarina, segundo dados do TSE organizados pelo Nexo.

No Paraná, o Novo integra a coligação Fortaleza Paraná, formada por PL, Podemos e Novo em torno da candidatura de Sergio Moro ao governo estadual. Deltan Dallagnol, principal nome do Novo na disputa pelo Senado, também manteve relação editorial com o OCP, tendo atuado como articulista do veículo.

Assim, forma-se uma sequência que merece ser examinada: a primeira pesquisa da Neokemp no Paraná foi contratada pelo partido que, naquele momento, era presidido por Moro; meses depois, o instituto passou a ter como principal contratante um veículo cujo presidente possui vínculo político declarado com o Novo, legenda que integra a aliança eleitoral de Moro no Estado.

Isso não permite afirmar que exista coordenação entre Moro, O Correio do Povo e a Neokemp. Também não comprova que os resultados tenham sido direcionados.

Mas a sequência é suficientemente relevante para justificar perguntas sobre quem financia os levantamentos, por que eles são contratados e quais mecanismos asseguram a independência técnica do instituto.

E os resultados?

A discussão ganha importância porque as pesquisas Neokemp/OCP passaram a ocupar espaço frequente na cobertura da disputa pelo Governo do Paraná.

Em setembro, uma pesquisa contratada pelo OCP apontou Sergio Moro com 48,8%, contra 23,3% de Requião Filho e 20,4% de Sandro Alex. O levantamento foi realizado nos dias 8 e 9 de setembro, com 1.008 entrevistas, margem de erro de 3,1 pontos percentuais e registro PR-04426/2026.

Outra pesquisa Neokemp/OCP, realizada em 22 e 23 de setembro, apontou Moro com 48,7%, Requião Filho com 25,9% e Sandro Alex com 20,8%.

O ponto a ser observado, entretanto, é que os resultados de uma pesquisa não comprovam, por si só, qualquer irregularidade na contratação ou na metodologia. A questão levantada aqui é anterior: diz respeito à concentração dos contratos e às relações dos contratantes.

Uma pesquisa já havia sido suspensa pela Justiça Eleitoral

Há ainda um episódio que integra o histórico da Neokemp no Paraná e que merece ser mencionado com precisão.

O levantamento PR-01340/2026, contratado pelo União Brasil-PR, teve inicialmente sua divulgação suspensa por decisão liminar da Justiça Eleitoral, após questionamentos apresentados pelo Democracia Cristã. Entre os pontos levantados estavam questões formais relacionadas ao registro da responsável técnica e alegações sobre a composição dos cenários.

A suspensão, porém, foi posteriormente revertida e a pesquisa acabou sendo divulgada. A Gazeta do Povo registrou que o levantamento foi contratado pelo União Brasil-PR e que sua divulgação havia sido inicialmente suspensa pela Justiça Eleitoral.

Portanto, não se trata de dizer que a Justiça tenha considerado a pesquisa fraudulenta. O episódio mostra apenas que o levantamento esteve submetido a uma controvérsia judicial sobre seu registro e divulgação.

O que precisa ser explicado

O próprio levantamento dos contratos mostra que o O Correio do Povo declarou recursos próprios como origem dos valores destinados às pesquisas. Essa classificação, contudo, não detalha quais receitas do veículo sustentam o investimento nem quais critérios editoriais levaram à contratação de tantos levantamentos sobre a eleição de outro Estado.

Também chama atenção o fato de OCP e Neokemp estarem sediados na mesma cidade, Jaraguá do Sul, embora essa coincidência geográfica não seja, por si só, prova de qualquer vínculo societário.

Há ainda registros de publicidade institucional do OCP em Santa Catarina e contrato de assinaturas com a Prefeitura de Schroeder. O material analisado, entretanto, não estabelece qualquer ligação entre recursos públicos e o financiamento das pesquisas eleitorais.

Por isso, as perguntas centrais permanecem:

Por que o União Brasil, então presidido por Sergio Moro, contratou a primeira pesquisa da Neokemp no Paraná?

Por que, meses depois, o O Correio do Povo passou a responder por nove dos 11 levantamentos registrados pelo instituto no Estado?

De onde vêm os R$ 250 mil declarados pelo veículo para essas pesquisas?

Qual é a justificativa editorial para um jornal catarinense financiar uma sequência de pesquisas sobre a disputa pelo Governo do Paraná?

E quais mecanismos garantem a independência técnica da Neokemp diante de seu principal contratante no Estado?

Cautela é necessária

Os dados disponíveis não comprovam fraude, manipulação ou direcionamento dos resultados. O que está documentado é a concentração financeira e contratual e a existência de vínculos políticos que justificam questionamentos públicos sobre transparência e independência.

O ponto central, portanto, não é afirmar antecipadamente que as pesquisas são inválidas. É exigir que instituto e contratante expliquem de maneira transparente a relação comercial, o financiamento e os critérios que estão por trás de uma sequência de levantamentos que passou a ter peso relevante no debate eleitoral paranaense.

E essa explicação se torna especialmente importante porque pesquisas eleitorais não são apenas números: elas podem influenciar a percepção do eleitor, a cobertura jornalística, estratégias partidárias e o próprio ambiente da disputa.

No caso da Neokemp no Paraná, a pergunta sobre “quem paga a conta” deixou de ser um detalhe administrativo e passou a ser parte relevante da compreensão sobre como esses números chegam ao eleitor.

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