Ex-juiz da Lava Jato protocolou candidatura sem apresentar propostas, sofreu ação na Justiça Eleitoral e agora tenta consolidar um programa de governo que, segundo analistas, ainda carece de consistência e viabilidade financeira.
A corrida ao Palácio Iguaçu ganhou um novo capítulo com a apresentação do plano de governo do senador Sergio Moro (PL), candidato ao governo do Paraná. O documento, protocolado tardiamente após uma série de questionamentos na Justiça Eleitoral, reúne propostas para as áreas de segurança, saúde, educação e infraestrutura. No entanto, a trajetória do plano até aqui já expõe fragilidades que adversários e analistas políticos não deixaram passar despercebidas.
A polêmica do início: candidatura sem plano
A campanha de Moro começou sob desconfiança. Em 7 de agosto, o senador registrou sua candidatura ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PR) sem apresentar o plano de governo, documento obrigatório para candidatos ao Executivo. A ausência gerou reação imediata. No dia 12 de agosto, a coligação “A Mudança Continua” – que reúne PSD, Republicanos, MDB e outras siglas aliadas ao governador Ratinho Junior (PSD) – protocolou uma notícia de irregularidade no TRE-PR, argumentando que a omissão comprometia o direito dos eleitores de conhecer as propostas do candidato.
A defesa de Moro rebateu, afirmando que a legislação permite a complementação da documentação até 15 de agosto. O próprio senador classificou a ação como “mais um factóide da campanha do candidato do Governo que não consegue sair do último lugar nas pesquisas”. Apesar da justificativa, o episódio já colocou em xeque a imagem de gestor preparado que Moro tenta construir.
Presídio “El Salvador”: marketing ou solução?
A proposta mais comentada do plano de Moro veio na área de segurança. Durante um congresso da Fiesp em São Paulo, com a presença do ministro da Justiça de El Salvador, o candidato anunciou que, se eleito, construirá um presídio estadual de segurança máxima batizado de “El Salvador”.
A escolha do nome é uma homenagem explícita ao presidente Nayib Bukele, cujo modelo de encarceramento em massa tem sido adotado como referência por setores da direita latino-americana. Moro argumenta que a medida reduziria a dependência do Paraná das penitenciárias federais para detentos de alta periculosidade.
A proposta, no entanto, levanta bandeiras vermelhas. O regime de exceção em El Salvador, vigente desde 2022, já colocou dezenas de milhares de pessoas atrás das grades, muitas vezes sem devido processo legal. Organizações de direitos humanos documentaram denúncias de detenções arbitrárias, tortura, maus-tratos e mortes sob custódia. Críticos apontam que Moro estaria importando um modelo autoritário incompatível com o Estado Democrático de Direito, sem apresentar soluções estruturais para inteligência, prevenção e reintegração social – áreas que o plano menciona, mas não desenvolve com profundidade.
A acusação de “reciclagem” e o problema da originalidade
Outra crítica recorrente ao plano de Moro é a falta de originalidade. Adversários apontam que diversas propostas do senador já estão em andamento no governo Ratinho Junior.
O caso mais emblemático é o Centro Pompidou Paraná, em Foz do Iguaçu. O plano de Moro prevê a implantação do museu – mas a negociação para trazer o primeiro satélite do renomado museu francês para as Américas foi conduzida pelo governador Ratinho Junior ao longo de cinco anos. O projeto arquitetônico foi apresentado em setembro de 2025, e os contratos de cooperação técnica foram formalizados em junho de 2026, com investimento estadual de R$ 183 milhões. Moro nega que esteja tentando assumir o crédito e afirma que seu compromisso é “dar continuidade ao trabalho iniciado” – o que, para críticos, soa como reconhecimento de que seu plano não traz novidades.
A mesma lógica se repete em outras áreas. Enquanto Moro promete renovar estradas, o governo atual já construiu mais de mil quilômetros de vias em concreto. O programa de energia renovável no campo já existe, com o RenovaPR criado em 2021. Para analistas, Moro “recicla ações já implantadas” e ainda não apresentou propostas inéditas para o Paraná.
Saúde: boas intenções, pouca viabilidade
Na área da saúde, Moro aposta na criação de uma “tabela SUS paranaense”. Inspirada no modelo paulista, a proposta prevê um pagamento complementar do tesouro estadual para hospitais e profissionais, com o objetivo de dobrar o número de cirurgias eletivas e reduzir filas.
A ideia é atraente, mas esbarra em questões práticas. O próprio plano admite que a saúde no Paraná é “subfinanciada” e que o governo investe apenas 12,2% da receita no setor – o último lugar entre os estados da federação. No entanto, Moro não detalha de onde virão os recursos para financiar a tabela complementar, nem apresenta um cronograma claro para as metas prometidas. Sem números e sem fonte de financiamento, a proposta corre o risco de soar como mais uma promessa de campanha sem lastro.
Gestão: o discurso do “choque” sem substância
Moro promete reduzir o número de secretarias e cargos comissionados, cortar gastos e criar uma “Agência Anticorrupção” com mandato fixo para seu diretor. Também defende a criação de um código de ética para a alta administração e a substituição do controle interno atual por um quadro de auditores concursados.
O discurso de combate ao desperdício e à corrupção é a marca registrada de Moro, mas críticos apontam que falta especificidade. Quais secretarias serão cortadas? Quantos cargos serão eliminados? Quanto será economizado? O plano não responde. Além disso, a promessa de “governança regionalizada” – com fóruns regionais e participação social – parece contradizer a meta de enxugar a máquina pública, criando uma tensão não resolvida no documento.
O “como” e o “com quanto”: a grande ausência
A falha mais estrutural do plano de Moro é a ausência de um orçamento ou de uma estimativa de custos para as centenas de propostas apresentadas. O documento afirma que as sugestões passaram por “análise de viabilidade e disponibilidade orçamentária”, mas não apresenta os resultados dessa análise ao eleitor.
Como financiar a Tabela SUS Paranaense? Quanto custará construir o Hospital do Trabalhador Norte? Qual o investimento necessário para universalizar o saneamento até 2033? De onde virão os recursos para as dezenas de obras rodoviárias listadas? Sem respostas, o plano de Moro parece mais uma lista de desejos do que um programa de governo viável.
O cenário eleitoral e o risco de “desidratar
Apesar das críticas, Moro lidera as pesquisas de intenção de voto no Paraná. No entanto, analistas políticos alertam que seu discurso ainda é “frágil” e que, se a falta de consistência persistir, o candidato “corre o risco de desidratar” na reta final da campanha.
O desafio de Moro é duplo: transformar sua marca nacional – construída fora da administração pública – em um projeto de governo crível para o Paraná, e convencer os eleitores de que suas propostas vão além do discurso e da reciclagem de ações já em curso. O plano de governo, como está, ainda não responde a essas perguntas.
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