Evento realizado em plena campanha eleitoral coloca sob questionamento o uso de estrutura, recursos, pesquisas e produção de conteúdo da entidade
Um congresso da FIESP realizado em plena campanha eleitoral, com Sérgio Moro no centro da programação, abre uma série de perguntas que ainda não têm respostas públicas.
Moro era candidato ao Governo do Paraná e, ao mesmo tempo, era apresentado como presidente do Conselho Superior de Segurança (COSEG) da FIESP. O Congresso FIESP de Segurança Pública ocorreu em 31 de agosto, na sede da entidade, em São Paulo. Ele foi anunciado como anfitrião e participou da abertura e de painéis do encontro.
O evento não foi pequeno. Reuniu autoridades brasileiras e estrangeiras e apresentou três pesquisas da FIESP sobre segurança pública.
E é justamente aí que começa o questionamento.
Quem autorizou? Quem pagou?
O dossiê que acompanha o caso aponta que ainda não foram localizados documentos essenciais: orçamento do congresso, centro de custo, contratos, fornecedores, notas fiscais e a ordem ou documento que mostre quem solicitou e autorizou a realização do evento.
São perguntas básicas:
Quanto custou o congresso?
Quem autorizou o orçamento?
Quem contratou os fornecedores?
Quem autorizou os pagamentos?
De onde vieram os recursos?
Houve participação financeira ou operacional do IRS, SESI-SP ou SENAI-SP? Houve cessão de funcionários, equipamentos, estrutura audiovisual ou comunicação?
O dossiê aponta que essas informações são necessárias para individualizar a origem e a natureza das despesas.
E as pesquisas?
Outro ponto é ainda mais sensível.
O congresso apresentou pesquisas produzidas pela FIESP. Depois do evento, é necessário verificar onde foram parar esses estudos, apresentações, gráficos, vídeos, fotografias e demais conteúdos produzidos com estrutura institucional.
Algum deles foi utilizado pela campanha de Moro?
Alguma pesquisa apareceu em vídeos eleitorais?
Algum gráfico ou apresentação foi incorporado a discursos, propaganda ou redes sociais?
Algum fornecedor contratado para o congresso também trabalhou para a campanha?
Algum funcionário ou equipe da FIESP participou posteriormente da produção eleitoral?
O próprio dossiê recomenda esses cruzamentos entre pesquisas da FIESP, discursos, programa eleitoral, anúncios, entrevistas e conteúdos audiovisuais da campanha.
O problema não é o debate. É a estrutura utilizada.
Uma entidade privada pode promover um congresso sobre segurança pública. Isso, isoladamente, não configura irregularidade.
O problema é saber se uma estrutura institucional, durante uma campanha eleitoral, acabou produzindo benefícios que posteriormente foram aproveitados por uma candidatura.
E há um dado que torna a pergunta ainda mais relevante.
Durante o congresso, Moro anunciou que, se eleito governador do Paraná, pretende construir um presídio de segurança máxima chamado “El Salvador”, inspirado na experiência salvadorenha.
Reportagem da Agência Pública também registrou que, na abertura, Moro chamou Guilherme Derrite de “futuro senador” e que participantes fizeram referências eleitorais durante o evento.
Isso não prova, por si só, uma irregularidade eleitoral.
Mas reforça a necessidade de esclarecer onde termina o evento institucional e onde começa o eventual aproveitamento eleitoral de sua estrutura e de seu conteúdo.
A pergunta que permanece
O dossiê não afirma que a FIESP financiou a campanha de Moro, nem que o congresso foi criado com finalidade eleitoral. Essas conclusões ainda dependem de documentos.
Mas justamente por isso a investigação precisa avançar.
Quem autorizou o congresso?
Quanto foi gasto?
Quem recebeu?
Qual foi a fonte do dinheiro?
Quem produziu as pesquisas e os vídeos?
E o que desse material acabou sendo utilizado pela campanha de Sérgio Moro?
Enquanto essas respostas não aparecerem, o Congresso de 31 de agosto permanece cercado por uma pergunta que precisa ser respondida documentalmente:
foi apenas um evento institucional da FIESP ou uma estrutura institucional que acabou produzindo conteúdo e exposição aproveitáveis eleitoralmente?
A resposta está nos documentos financeiros, nos contratos, nos fornecedores e, principalmente, no cruzamento entre o que a FIESP produziu e o que a campanha de Moro utilizou depois. Que se investique!



