Por Luiz Paulo de Oliveira, Gerente de Automação do SiDi
A transformação digital, a automação avançada e a Inteligência Artificial evidenciaram ainda mais a discussão sobre a dificuldade de inovação da indústria brasileira. Há inúmeros estudos e argumentos que mostram o Brasil em baixa no quesito, mas pouco se debate o porquê. A realidade é que existe um abismo entre o discurso sedutor da tecnologia e a realidade do chão de fábrica. A parede que separa os dois cenários é o risco implícito. O tema deve ter maior relevância e frequência de discussões entre empresas e os institutos que possuem o conhecimento sobre as Leis de Incentivo e possuem conhecimento avançado sobre tecnologias que podem mudar as operações das fábricas. Assim, é possível identificar possibilidades e aplicar projetos de P&D que trazem diferencial tecnológico para competitividade.
Uma fábrica que possuí uma linha de produção, que frequentemente opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, não tem margem para falhas. Para o gestor dessa fábrica, que precisa atingir metas de peças produzidas por minuto, a inovação pode parecer uma variável de risco, já que, por natureza, envolve incertezas. A prioridade sempre será a certeza de resultados imediatos. Por isso, a indústria anseia por soluções de prateleira mesmo com as limitações conhecidas, enquanto a inovação verdadeira, que exige tempo, testes e validação, não tem aceitação imediata por ser condicionada com aos possíveis riscos de não atendimento de imediato dos resultados esperados. Porém com a maturidade do projeto de P&D, os resultados podem ter um nível muito mais alto em relação às soluções de prateleira.
Historicamente, há uma distância entre a universidade, que estuda e propõe as tecnologias que serão aplicadas no futuro, para a indústria. Para estreitar esse caminho, os institutos de desenvolvimento surgiram como uma alternativa e conexão entre a pesquisa acadêmica e a aplicação da tecnologia nas operações industriais. Com menor custo de operação e alta expertise, ao reunir especialistas de tecnologia, eles desenvolvem e testam soluções inovadoras e as levam maduras para o mercado. O problema é que esse caminho ainda não acontece no tempo ideal. É exatamente essa lacuna que precisa de atenção.
Compreender a dor real da indústria e o seu contexto é o primeiro passo para mitigar riscos. Pensar na cultura do projeto-piloto também é necessário e com ganhos imediatos e a um custo inferior em comparação ao valor para um projeto complexo. Em vez de tentarmos transformar 15 linhas de produção de uma só vez, o caminho mais estratégico é escolher apenas uma, criar um ambiente controlado e isolado para aplicação da inovação. Se o projeto não entregar o resultado esperado, o impacto na operação é mínimo. Mas, se der certo, a solução pode ser expandida rapidamente para o restante da fábrica, com resultados já implementados e comprovados.
Os incentivos estão disponíveis, mas falta conhecimento de como aplicá-los.
A indústria quer garantia, já a inovação exige tolerância ao erro. Para fechar essa conta, o Brasil possui mecanismos excelentes, como a Lei do Bem, a Lei de Informática e linhas de fomento da Finep. Essas leis de incentivo funcionam como um amortecedor de riscos. O Governo entende que a pesquisa pode não dar o resultado esperado e, por isso, faz a concessão de incentivos fiscais a fim de promover a modernização da indústria. Esta não precisa desembolsar o montante total, o que destrava a decisão de investir.
Contudo, para que essa engrenagem rode na velocidade que o mercado global exige, precisamos de desburocratização. No Brasil, o tempo de análise de propostas ainda pode levar meses, período em que a dinâmica da própria indústria, o nível de maturidade de uma tecnologia ou mesmo a equipe de pesquisa, já pode ter mudado.
Para auxiliar, o Governo poderia ampliar a divulgação das informações das leis de incentivo e promover eventos de comunicação direta com a indústria, com apoio de universidades e institutos de pesquisas. Quando o Estado reduz o tempo de resposta e se alinha ao ritmo urgente do mercado, ele valida o risco junto com a indústria no momento exato em que a dor aparece. Isso impede que os projetos percam o timing e, mais importante, evita a dispersão de talentos científicos e pesquisadores ao longo do caminho. Trata-se de transformar a política pública em uma ferramenta de competitividade em tempo real, garantindo que o dinheiro do incentivo chegue à fábrica enquanto a janela de oportunidade ainda está aberta.
Inovar não precisa ser um salto no escuro que ameace a saúde financeira de uma operação industrial. O uso tático de projetos-piloto e o apoio das leis de incentivo formam o caminho para que institutos levem a tecnologia da prancheta direto para a realidade das fábricas, transformando o medo do risco na certeza da competitividade. Quando esse for o foco, deixaremos de ocupar a 64ª posição no ranking de inovação, segundo estudo da Organização Mundial de Propriedade Intelectual e nos tornaremos um país com indústrias com alto nível de maturidade tecnológica produtiva e totalmente competitiva as atuais potências de produção mundial.
No fim das contas, elevar o tom de críticas para a suposta inércia da indústria ou para a academia por criar soluções desconexas da realidade é o caminho mais fácil, mas também o menos produtivo e menos eficiente. O verdadeiro desafio da nossa economia não está em diagnosticar culpados, mas em lubrificar as engrenagens do processo tecnológico e fazer de fato com que a tecnologia possa ser utilizada nas operações como ferramentas de competitividade.
Precisamos, urgentemente, avançar o debate para os meios práticos e estruturais que farão a corrente universidade, institutos de pesquisa e indústria fluir com a naturalidade e a velocidade que o mercado global exige. Só quando essa conexão deixar de ser um gargalo burocrático e passar a ser uma esteira contínua é que transformaremos o risco da inovação na nossa maior certeza de competitividade.
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